20 ago 2026

[Resenha] Chamados para Criar | Jordan Raynor – quando nosso trabalho também glorifica a Deus

Quando encontrei um livro chamado Chamados para criar, foi impossível não me interessar. O título, por si só, já conversa muito com aquilo em que acredito e com o próprio propósito deste site: fomos criadas por Deus e, de alguma maneira, também fomos chamadas a criar.

Comecei a leitura esperando um livro mais direcionado a artistas, pessoas que pintam, desenham, escrevem ou trabalham diretamente com criatividade. Mas logo percebi que Jordan Raynor trata a criação de uma forma muito mais ampla. Para ele, criar também é empreender, desenvolver uma ideia, resolver um problema, construir um negócio, inventar uma solução ou realizar um trabalho que sirva a outras pessoas.

Essa foi uma das coisas que mais me fizeram refletir durante a leitura.

Às vezes, limitamos a criatividade às atividades tradicionalmente artísticas. Pensamos em pintura, música, literatura e artesanato, mas nos esquecemos de que existe criatividade em quase todo trabalho feito com atenção, inteligência e desejo de produzir algo bom. Uma professora pode ser criativa ao preparar uma aula. Uma empreendedora cria quando transforma uma ideia em um produto. Uma designer cria soluções. Até mesmo alguém que organiza processos pode encontrar uma maneira nova e melhor de servir.

A ideia central do livro é simples, mas muito importante: Deus é Criador e nós fomos feitas à sua imagem. É claro que não criamos como Deus cria. Ele cria a partir do nada; nós trabalhamos com materiais, capacidades, oportunidades e recursos que já recebemos dele. Ainda assim, existe em nós esse impulso de imaginar, desenvolver, organizar e dar forma às coisas.

A criatividade humana não nos torna pequenas deusas. Pelo contrário: ela revela nossa dependência. Criamos porque primeiro recebemos. Recebemos inteligência, sensibilidade, tempo, matéria, referências, habilidades e possibilidades. Nossa criação é sempre uma resposta àquilo que Deus já fez e nos permitiu enxergar.

Outro ponto importante do livro é a maneira como ele questiona a separação que costumamos fazer entre trabalho “sagrado” e trabalho “secular”. Muitos cristãos cresceram com a impressão de que servir verdadeiramente a Deus significa trabalhar dentro da igreja, tornar-se missionário ou exercer alguma função religiosa. Todas essas vocações são preciosas, mas não são as únicas maneiras de servir ao Senhor.

Um trabalho honesto, excelente e voltado para o bem do próximo também pode glorificar a Deus.

Isso não significa que todo projeto que fazemos seja automaticamente santo apenas porque somos cristãs. Nossas motivações precisam ser examinadas. Podemos transformar criatividade, dinheiro, reconhecimento e até mesmo a ideia de “propósito” em ídolos. Mas também não precisamos tratar nossos dons como se fossem distrações sem importância.

O livro me ajudou a perceber melhor esse equilíbrio: não devemos desprezar o trabalho criativo, mas também não devemos adorá-lo.

Raynor fala bastante sobre empreendedorismo, riscos, negócios e inovação. Ele reúne princípios bíblicos e histórias de cristãos que colocaram ideias em prática e construíram projetos capazes de servir a outras pessoas. A leitura é acessível, inspiradora e, em vários momentos, bastante prática.

Ao mesmo tempo, acredito que essa seja também uma pequena limitação do livro. Como muitos exemplos vêm do universo empresarial, quem trabalha especificamente com arte ou mantém a criatividade como hobby pode sentir certa distância em alguns capítulos. Em alguns momentos, eu gostaria que o autor falasse mais sobre a criação silenciosa e cotidiana: aquela que talvez nunca se transforme em uma grande empresa, alcance milhares de pessoas ou produza resultados impressionantes.

Nem todo chamado criativo será grandioso aos olhos do mercado.

Algumas pessoas criarão para uma comunidade pequena. Outras produzirão beleza dentro de casa, ensinarão poucas pessoas, cuidarão de um projeto simples ou desenvolverão uma obra que talvez nunca se torne conhecida. Isso não torna esse trabalho menos digno. A importância da criação não pode ser medida apenas pelo tamanho do público, pelo lucro ou pela visibilidade alcançada.

Ainda assim, compreendo a escolha do autor. Chamados para criar conversa principalmente com cristãos empreendedores e pessoas que desejam transformar uma ideia em algo concreto. Nesse sentido, ele cumpre muito bem sua proposta.

Uma das mensagens que ficaram comigo é que o chamado não elimina o trabalho. Ter um dom não significa que tudo acontecerá naturalmente. Uma ideia precisa de coragem, mas também de disciplina. Criar envolve estudar, praticar, errar, corrigir, aprender e continuar. Muitas vezes, queremos uma confirmação extraordinária de Deus quando já temos diante de nós habilidades que precisam ser cultivadas e pessoas que podem ser servidas.

Também gostei do fato de o livro não apresentar o lucro como inimigo da fé, mas não permitir que ele se torne o propósito final. Um negócio precisa ser sustentável, uma profissional precisa cobrar pelo próprio trabalho e um produto precisa gerar recursos para continuar existindo. O problema não está simplesmente em ganhar dinheiro, mas em fazer dele nosso senhor, nossa identidade ou nossa medida de valor.

Para mim, a grande contribuição de Chamados para criar é lembrar que a fé não precisa ficar separada da vida profissional e criativa. Não somos cristãs apenas quando estamos na igreja, lendo a Bíblia ou realizando alguma atividade explicitamente religiosa. Também pertencemos a Deus quando desenhamos, escrevemos, planejamos, vendemos, ensinamos, administramos ou começamos algo novo.

Isso muda não apenas aquilo que criamos, mas a maneira como criamos.

Criamos com humildade porque os dons não nasceram em nós. Criamos com responsabilidade porque nosso trabalho afeta outras pessoas. Criamos com excelência porque aquilo que fazemos merece cuidado. Criamos com coragem porque o medo não deve governar nossas decisões. E descansamos porque o resultado final nunca esteve completamente em nossas mãos.

Eu recomendaria este livro principalmente para cristãs que empreendem, desejam começar um projeto ou sentem dificuldade em compreender a relação entre fé, criatividade e trabalho. Ele não responde a todas as questões sobre arte e vocação, nem pretende oferecer uma teologia completa da criatividade. Mas abre uma conversa necessária e nos ajuda a enxergar o trabalho criativo com mais propósito.

Talvez seja disso que muitas de nós precisamos: não de uma justificativa para nos sentirmos superiores por criar, mas da liberdade para parar de tratar a criatividade como algo inútil.

Nossos dons não são a nossa identidade. Nosso trabalho não é o nosso salvador. Nossa arte não precisa provar o nosso valor. Mas tudo isso pode ser recebido com gratidão, desenvolvido com dedicação e colocado a serviço do próximo.

Soli Deo Gloria